Tomografia revela nova linhagem de besouros que viveu no Brasil há cerca de 113 milhões de anos

Estudo liderado por pesquisador do Instituto Nacional de Coleoptera (INCol) descreve uma nova família de besouros fósseis e registra pela primeira vez um dos grupos mais antigos da evolução dos besouros na Formação Crato, no Ceará.

Esquerda: Vista dorsal de fóssil de Cratocupes scabrosus após tratamento com álcool, utilizado para realçar detalhes da superfície. Direita: Reconstrução tridimensional da região ventral de Cratocupes scabrosus obtida por microtomografia computadorizada.
Esquerda: Vista dorsal de fóssil de †Cratocupes scabrosus (nova espécie descrita no estudo) após tratamento com álcool, utilizado para realçar detalhes da superfície. Direita: Reconstrução tridimensional da região ventral de †Cratocupes scabrosus obtida por microtomografia computadorizada.

Pesquisadores do Brasil e da Alemanha identificaram uma nova linhagem de besouros que viveu há cerca de 113 milhões de anos na região que hoje corresponde ao Nordeste brasileiro, a partir de fósseis encontrados na Formação Crato, no Ceará.

Localizada na Bacia do Araripe, a Formação Crato é reconhecida internacionalmente pela qualidade de preservação de seus fósseis. Os depósitos calcários da região registram organismos que viveram durante o Cretáceo Inferior e frequentemente conservam detalhes anatômicos raramente encontrados em outros sítios fossilíferos. Por isso, a formação é considerada uma das mais importantes para compreender a biodiversidade que existia em Gondwana, o antigo supercontinente que reunia a América do Sul, a África, a Antártida, a Austrália e a Índia, há mais de 100 milhões de anos.

Os fósseis analisados pertencem à coleção do Museu de Zoologia da USP e foram incorporados recentemente ao acervo. Logo nas primeiras análises do material, a equipe percebeu que aqueles espécimes mereciam um estudo mais detalhado.

“A primeira coisa que chamou a atenção foi a qualidade da preservação, que possibilitou identificar imediatamente que esses fósseis se tratavam de besouros do grupo dos Archostemata. Fósseis desse grupo eram inéditos na América do Sul”, explica Gabriel Biffi, um dos autores do estudo.

Embora a superfície dorsal (superior) dos espécimes estivesse visível há anos, grande parte da anatomia permanecia preservada e escondida no interior da rocha. Como muitas das características diagnósticas utilizadas para identificar e comparar os besouros estão localizadas na região ventral (inferior) do corpo, os pesquisadores recorreram à microtomografia computadorizada para realizar uma espécie de “escavação digital” dos fósseis. Ainda pouco explorada no estudo de insetos fósseis preservados em rochas, como os encontrados na Formação Crato, essa abordagem permitiu reconstruir tridimensionalmente os espécimes e acessar estruturas anatômicas inacessíveis por métodos tradicionais, incluindo partes das pernas, do tórax e das peças bucais, características essenciais para compreender suas relações evolutivas. 

Reconstrução tridimensional de †Cratocupes scabrosus obtida por microtomografia computadorizada. A técnica permitiu visualizar estruturas da região ventral do besouro que permaneciam ocultas no interior da rocha. Diferentes cores destacam regiões anatômicas do fóssil, como as pernas (azul), partes do tórax (amarelo e vermelho), o pronoto (verde) e os élitros (laranja).

As informações obtidas permitiram posicionar os espécimes entre os Archostemata, um grupo hoje raro, mas que foi muito mais diverso no passado. As análises indicam que essa linhagem teve origem há mais de 300 milhões de anos, entre o final do Carbonífero e o início do Permiano, muito antes do surgimento dos dinossauros. Atualmente, os Archostemata reúnem menos de cinquenta espécies vivas em todo o mundo.

Visão geral da história evolutiva dos Archostemata. (a) Estimativas da idade das pri ncipais linhagens do grupo ao longo do tempo. As barras azuis indicam a faixa de incerteza dessas estimativas. (b) Distribuição temporal das espécies fósseis de Archostemata conhecidas, mostrando em quais períodos geológicos elas viveram. (c) Reconstrução das relações evolutivas entre as principais linhagens de Archostemata com base em uma das análises filogenéticas realizadas no estudo. (d) Reconstrução alternativa das relações evolutivas entre as principais linhagens de Archostemata, obtida por um segundo método de análise.

O estudo descreve três espécies de Archostemata e registra pela primeira vez representantes desse grupo na Formação Crato. Entre elas está Cratocupes scabrosus, uma espécie tão distinta das demais que levou os pesquisadores a propor uma nova família extinta, denominada Cratocupedidae.

“No início, achávamos que esse fóssil representava um gênero novo de uma família chamada Cupedidae, que possui representantes vivos e fósseis. Começamos a mudar de ideia quando fizemos a microtomografia e vimos suas estruturas ventrais, que diferiam das dos Cupedidae. Além disso, as características não se encaixavam em nenhuma família já conhecida de Coleoptera. O estudo filogenético confirmou que se tratava de uma nova família”, explica Biffi.

De acordo com os pesquisadores, o nome Cratocupes combina uma referência à Formação Crato com “Cupes”, um gênero próximo pertencente à família Cupedidae. Já o epíteto específico scabrosus deriva de uma palavra latina que significa “áspero”, em alusão às pequenas protuberâncias que recobrem a superfície do corpo do besouro e lhe conferem um aspecto rugoso.

Os resultados do estudo ajudam a preencher uma importante lacuna geográfica no registro fóssil desses insetos. Embora os Archostemata sejam conhecidos em diversos depósitos fossilíferos da Europa, Ásia e América do Norte, os registros para Gondwana são escassos. Os fósseis da Formação Crato mostram que essas linhagens também habitavam os ecossistemas tropicais do Cretáceo sul-americano.

Segundo Biffi, a descoberta demonstra que os Archostemata já estavam amplamente distribuídos pelo planeta antes da separação dos supercontinentes. “Esses são os primeiros registros de membros de Archostemata na parte ocidental de Gondwana, comprovando que o grupo já estava amplamente distribuído pelo mundo antes da separação dos supercontinentes. A descoberta deles ajuda a entender como era a biota na região do Crato há cerca de 113 milhões de anos.

A pesquisa também reforça a importância das coleções biológicas e paleontológicas para a produção de novos conhecimentos científicos. Os exemplares analisados, preservados há anos em acervos brasileiros, ganharam novas interpretações graças à aplicação de tecnologias capazes de acessar estruturas invisíveis externamente.

Essas tecnologias não são necessariamente novas. O uso que fazemos delas é o que torna as pesquisas inovadoras”, destaca Biffi. O pesquisador ressalta ainda que esta foi a primeira vez que a abordagem foi aplicada a besouros da Formação Crato, o que mostrou um nível de detalhe raramente observado em fósseis de insetos. Com o crescente acesso a essas ferramentas no Brasil, ele acredita que será possível abrir uma nova fase no estudo de fósseis de insetos, permitindo observar e reconstruir em três dimensões estruturas que antes permaneciam inacessíveis.

Reconstrução tridimensional de †Cratocupes scabrosus obtida por microtomografia computadorizada, mostrando diferentes perspectivas do fóssil: (a) vista dorsal; (b) vista ventral; (c) vista lateral direita; (d) vista frontal; (e) vista ventrolateral direita; (f) vista ventrolateral esquerda.

O trabalho foi desenvolvido por Gabriel Biffi, pesquisador do Museu de Zoologia da Universidade de São Paulo (MZUSP), do Instituto Tecnológico Vale (ITV) e integrante do Instituto Nacional de Coleoptera (INCol). A pesquisa contou ainda com a colaboração de Anderson Lepeco, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), e de Rolf Beutel, da Friedrich-Schiller-Universität Jena e do Senckenberg Forschungsinstitut und Naturmuseum, na Alemanha.

O artigo foi publicado na revista Systematic Entomology.
https://resjournals.onlinelibrary.wiley.com/doi/10.1111/syen.70061

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